6 caminhos para enfrentar a evasão no Ensino Superior na pandemia

18 de agosto de 2020 7 mins. de leitura
Conheça a opinião de especialistas sobre alternativas para a redução da evasão no Ensino Superior durante a pandemia do coronavírus

A evasão dos alunos nas universidades sempre despertou a atenção de gestores e educadores. Por isso, junto a eixos importantes, como financiamento, acesso e permanência estudantil, esse problema se tornou um dos temas de estudo mais presentes no campo das políticas educacionais de nível superior.

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Diante da pandemia de covid-19, o assunto ganhou uma dimensão ainda maior. Uma projeção recente do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp), por exemplo, mostra que, só na rede privada, o número de estudantes nas universidades já teve uma queda de 7,6% em decorrência da atual crise sanitária. 

O professor José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, conta que a instituição ainda está em processo de rematrícula, mas já espera taxas de evasão superiores aos 20% que correspondem à média (habitual) entre as instituições de ensino superior não públicas.

Contexto

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Trabalhos precários com longas jornadas podem afastar os jovens de uma formação superior. (Fonte: Shutterstock)

Para o reitor, as causas da evasão são várias, mas o desemprego e o trabalho precarizado estão entre as principais, uma vez que não permitem que os jovens reservem tempo, energia e dinheiro para sua formação, se tornando apenas “sobreviventes”.

Além disso, Vicente relata que há um problema de falta de horizonte: embora os jovens ouçam que a educação garante um amanhã melhor, não verificam isso na prática. Portanto, há uma tendência à desesperança e à falta de sonhos, que os afastam do Ensino Superior e da possibilidade da construção de um futuro com novas possibilidades a partir de uma carreira.

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Belmiro Marcos Beloni, pedagogo do Câmpus Guarapuava da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), concorda. Em sua visão, é difícil para o estudante conciliar o Ensino Superior com demandas de trabalho, sobretudo quando se trata de atividades informais e com jornadas a perder de vista — modelo que vem crescendo ultimamente. 

Agora, na pandemia, o problema fica ainda mais complicado — sobretudo, devido ao fato de que muitas famílias tiveram sua renda drasticamente reduzida em meio a uma crise que, além de sanitária, é econômica. 

Muitos alunos de universidades particulares não estão conseguindo arcar com as mensalidades, e há também aqueles de instituições públicas impossibilitados de custear a própria subsistência. Confira 6 caminhos para lidar com esse tipo de impasse. 

1. Políticas de permanência estudantil

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A saúde mental dos estudantes deve ser observada como uma prioridade. (Fonte: Shutterstock)

No caso das universidades públicas, há uma série de políticas de permanência que contribuem para a manutenção do aluno como estudante: auxílios financeiros, atenção à saúde física e mental, acompanhamento social pedagógico, entre outros. Porém, segundo Beloni, é necessário que a universidade saiba se reinventar e ressignificar a permanência durante e após a pandemia.

Para o pedagogo, a principal mudança deve ser quanto ao foco no aluno como um ser humano integral. Por isso, antes de priorizar elementos burocráticos, é preciso olhar para o estudante em sua complexidade e pensar na permanência como uma tentativa de manter o vínculo entre ele e a instituição. “Prazos, presenças, aprovações e calendário, tudo isso vem depois do estudante como ser humano”, opina.

Na visão do especialista, se há dificuldade de integralizar o currículo em virtude da pandemia, há como integralizar a atenção no estudante como cidadão. Ofertar cursos de extensão, cuidar da saúde mental e estabelecer uma dinâmica que crie uma sensação de pertencimento são cuidados importantes a serem priorizados neste momento.

2. Adaptação curricular

Beloni defende também que as universidades públicas e privadas pensem em reorganizar a modalidade de ensino no pós-quarentena. Uma alternativa é apostar no modelo híbrido, em que o estudante se prepara antes da aula presencial, para que chegue nesse espaço com construções conceituais em andamento e a aula na universidade trabalhe com conteúdos mais focados.

Segundo o pedagogo, isso difere do que se faz hoje na maior parte dos casos, porque não se trata de uma dicotomia entre remoto e presencial, tampouco de uma forma de flexibilização. Em vez disso, essas etapas devem se complementar. 

É oportuno, inclusive, que as universidades ofertem matérias que debatam justamente novas formas de aprender, de forma a preparar os alunos para a nova realidade pedagógica e manter os estudantes mais ativos na instituição.

3. Políticas de financiamento estudantil

moedas amontoadas
É necessário que as políticas de crédito estudantil sejam revistas em relação à realidade pós-pandemia. (Fonte: Shutterstock)

No caso das faculdades em que os alunos pagam mensalidade, como as comunitárias e privadas, há que se considerar ainda o fator da mensalidade. E é nesse momento que as políticas de financiamento podem ser a diferença entre conseguir ou não o tão almejado diploma. Por isso, é importante que elas dialoguem com o contexto em que os trabalhadores jovens estão inseridos.

Para Vicente, o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior  (Fies), programa de financiamento estudantil do Governo Federal,  teve cortes profundos diante da retração econômica e, a julgar pelo cenário de desemprego, os alunos podem não acessar essa política com medo de não conseguir uma colocação profissional e, assim, honrar as próximas parcelas. 

Por isso, o reitor defende que é necessário que o governo flexibilize a contrapartida da política de crédito estudantil, ofertando um tempo maior para o pagamento, por exemplo.

4. Programas de estágio

José Vicente considera que os programas de estágio estão entre os fatores de permanência mais importantes na instituição que dirige. E por uma série de razões. A primeira delas é que, do ponto de vista formal, os estágios que a universidade intermedeia junto ao setor produtivo exigem que o aluno se mantenha matriculado.

Contudo, mais do que isso, estágios e empregos na área de formação são úteis na renda, que subsidia a mensalidade, e na oferta de uma expectativa de carreira. Ao estar inserido no mercado de trabalho, o jovem passa a ter novas perspectivas sobre a direção de sua formação e de sua prática profissional.

Vicente acrescenta que dar isenção fiscal para aumento na empregabilidade de jovens é uma saída que poderia dinamizar o horizonte dessa geração.

5. Atividades extensionistas

O reitor lembra que em sua juventude, em Marília, a banda marcial da cidade foi um dos espaços de maior desenvolvimento pessoal. Lá, ele aprendeu sobre disciplina, técnica musical e satisfação. “Mas qual é o horizonte de um jovem do Capão Redondo?”, questiona.

Por isso, o João Vicente entende que as atividades extensionistas da instituição de ensino fazem a diferença. Na Faculdade Zumbi dos Palmares, o Coral e a Atlética (“a equipe de basquete é bicampeã!”, ressalta o reitor) são espaços de geração de vínculo, de networking e de pertencimento, tornando a faculdade um espaço de prazer, que ajuda a reduzir a evasão. 

6. Ambientes empreendedores

O reitor acrescenta que são necessários também estímulos aos jovens no que se refere a uma cultura inovadora, que gere renda e oportunidades. Os ambientes empreendedores são espaços importantes para que os estudantes cresçam acadêmica, profissional e pessoalmente.

O investimento em políticas de Ciência e Tecnologia é fundamental para o País; porém, além disso, fomenta um espaço de criação: não são apenas startups, mas uma série de vidas que voltam a ganhar significado. “Ninguém entra na faculdade pra sair; elas entram com um sonho”, conclui. 

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