O ensino remoto pode atrapalhar o desenvolvimento infantil?

18 de agosto de 2020 6 mins. de leitura
Professores e familiares devem intensificar o diálogo para proporcionar às crianças o melhor ensino possível dentro das atuais condições

Em meio à pandemia da covid-19, que paralisou atividades de ensino presenciais em todo o Brasil há alguns meses, as escolas estão debatendo a respeito do melhor momento de retomar o modelo anterior. Um dos elementos que perpassam essa discussão é o desenvolvimento cognitivo das crianças. 

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Qual é o impacto da transição do modo presencial para o remoto no processo de ensino-aprendizagem? O que fazer para suprir aspectos como a ausência de sociabilização? Esses questionamentos têm mobilizado educadores e gestores escolares a buscarem diversas soluções aos impasses colocados à Educação Básica neste momento. 

Ensino remoto

menina estudando no sofá
Transpor atividades presenciais para o ensino remoto sem as adaptações necessárias pode comprometer a qualidade da aprendizagem. (Fonte: Shutterstock)

Segundo a gerente pedagógica da ONG Nova Escola, Ana Lígia Scachetti, um ensino remoto não implica necessariamente em perdas. O problema é que, nesse momento, ocorre um ensino remoto emergencial: atividades planejadas para a forma presencial estão sendo adaptadas ou transpostas para acontecerem à distância.

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Por isso, existe uma tendência preocupante de as aulas serem excessivamente expositivas, sem permitir ao aluno participar ou interagir. Nesse caso, perde-se em qualidade, e é provável que o aluno perca interesse nas atividades, deixando de aprender o conteúdo da melhor forma. 

Porém, ainda de acordo com Scachetti, também é possível haver ganhos nesse processo. Isso porque, em virtude da característica desse momento de isolamento, pode haver mais personalização do ensino, por exemplo. 

Nesse sentido, o “vilão” dessa história não é o ensino remoto em si, mas o contexto: o isolamento social exigiu respostas urgentes sem que as escolas e seu corpo pedagógico pudessem construir ferramentas de ensino apropriadas no tempo necessário.

Isolamento

criança olhando pela janela
A falta de contato da criança com colegas da mesma idade está entre os principais fatores de preocupação para professores. (Fonte: Shutterstock)

A especialista acrescenta que a falta de interação com outras crianças está entre os principais problemas que a educação remota pode trazer no atual cenário: para as crianças pequenas, o aprendizado acontece por meio da interação e da troca com seus pares. Mesmo que eles tenham contato virtualmente com os colegas, isso pode não suprir a relação presencial.

Outro problema a ser observado pelas famílias e pela própria escola é o risco de uso excessivo de telas. Para Scachetti, “é importante que a criança tenha outras experiências, que possa manipular, criar e descobrir coisas por si própria”. 

Por isso, é importante que os pais e a escola estejam em constante diálogo para aprimorar as experiências e o aprendizado dos pequenos. Esse acompanhamento pode propiciar a ampliação do repertório da criança, bem como estimular brincadeiras, leituras, conversas e fomentar um bom espaço para a meninada se colocar e questionar o mundo ao seu redor.

Cooperação

professora gravando aula
A saúde mental dos professores pode ser afetada em virtude das exigências do ensino remoto. (Fonte: Shutterstock)

Scachetti adverte que esse diálogo é fundamental, mas deve ser fomentado dentro das possibilidades de todos esses atores. Isso porque nem a família nem a escola estavam prontas para lidar com os efeitos da pandemia. 

Os efeitos da pandemia sobre a saúde física e mental dos pais e responsáveis pelas crianças, somados ao desemprego e às formas de trabalho precárias, fazem com que o tempo destinado ao acompanhamento infantil possa ser menor do que o ideal. E é importante levar isso em conta na hora de pensar soluções para esse momento. 

Do ponto de vista do professor, há um desafio inédito. Todas as atividades são pautadas pelos objetivos de aprendizagem e pelo desenvolvimento de crianças e adolescentes. Com base nisso, o professor planeja suas ações e depois monitora os resultados para pensar nos próximos passos. 

Nesse período, porém, a adaptação tem exigido mais dos profissionais, que estão sofrendo ao tentar dar conta dessa realidade, aprendendo novas ferramentas e tentando manter a aprendizagem na Educação Básica. 

Então, a saúde mental dos professores também deve ser mencionada. “na pesquisa que realizamos sobre a situação dos professores na pandemia, vimos que a maioria deles está tendo uma experiência ruim com o ensino remoto e com sua saúde emocional pior”, diz Scachetti. 

Por isso, o diálogo e a compreensão mútua entre a família e a escola são fundamentais. Todas as partes estão fazendo o possível para suprir as necessidades que surgem mediante um esforço mútuo de cooperação em prol do desenvolvimento infantil.

Retorno ao ensino presencial

estudante de máscara
Em alguns casos, é possível que a lacuna de aprendizado seja sentida ao longo de anos após o retorno presencial. (Fonte: Shutterstock)

Outra questão que desde já preocupa os educadores é como organizar o retorno ao ensino presencial — que já ocorre em algumas cidades, como Manaus. Em São Paulo, com o maior número de escolas do País, essa etapa foi adiada para o início de outubro. 

Na visão de Scachetti, como as experiências de ensino remoto são muito heterogêneas, a primeira preocupação deve ser no sentido de garantir que crianças e adolescentes não evadam. Será necessário um esforço para engajar os alunos e retomar a conexão dos estudantes com a escola. 

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A especialista entende que a escola deve estar pronta para acolher uma comunidade que pode ter sofrido perdas em vários níveis e agora possui uma nova rotina. Os professores precisarão diagnosticar o que os alunos efetivamente aprenderam durante o período de isolamento social para, só então, estabelecer estratégias de apoio. 

Será necessário assegurar que os estudantes tenham condições de acompanhar o restante da sua vida escolar. E um alerta ainda maior da especialista é que isso pode levar mais tempo do que se imagina. É possível que esse impacto ainda seja sentido durante alguns anos escolares, razão pela qual o diálogo entre a escola e as famílias precisa ser fortalecido em longo prazo.

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